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Se você está com um osso quebrado e quer saber tudo o que pode fazer para ajudar na sua recuperação, este artigo é para você. Nele, vou falar sobre as coisas que mais ajudam e as que mais atrapalham a consolidação da fratura.
Ou seja, nele eu explico tudo o que deve ser feito e o que deve ser evitado para que o osso cole de forma mais rápida

O que mais afeta a consolidação da fratura
Vamos começar falando dos fatores que têm mais evidência e que mais interferem na consolidação da fratura. Consolidação, inclusive, é o termo correto para quando um osso quebrado “cola”.
Diabetes Mellitus
Um dos fatores que mais atrapalham a cicatrização do corpo é o Diabetes Mellitus, tanto o tipo 1 quanto o tipo 2. Isso vale para a consolidação da fratura, para feridas em geral e também para cortes cirúrgicos, caso você tenha passado por uma cirurgia.
Quanto mais descompensada a doença, pior é o processo de cicatrização. O diabetes pode aumentar em quase duas vezes o tempo necessário para cicatrizar uma ferida e para consolidar uma fratura.
Isso acontece porque a doença causa lesões nos vasos sanguíneos, principalmente nos microscópicos. Como consequência, a circulação de sangue na região machucada fica prejudicada, o que atrapalha muito a recuperação.
Além disso, o diabetes leva a um estado de inflamação crônica e reduz de forma importante a imunidade e as defesas do corpo. Com isso, não só dificulta a cicatrização, como também aumenta muito o risco de infecção, especialmente em cirurgias e fraturas expostas.
Por isso, se você tem diabetes ou pré-diabetes, precisa cuidar corretamente da condição.
“Ah, doutor, mas eu não tenho nada disso.”
Você não tem ou não sabe se tem? Se está na dúvida, é preciso investigar.
Cigarro e Nicotina
A segunda coisa que mais atrapalha a cicatrização é o cigarro, principalmente por causa do efeito da nicotina. Não importa se você fuma charuto, cigarro comum, narguilé ou cigarro eletrônico. Todos eles atrapalham a cicatrização. Inclusive, até o chiclete de nicotina interfere nesse processo.
O cigarro tem tanta evidência científica quanto o diabetes. O tabaco e a nicotina prejudicam muito a microcirculação, da mesma forma que o diabetes. Com isso, dificultam a circulação de sangue com oxigênio e nutrientes para as células, além da chegada de células de defesa e de cicatrização ao local da lesão.
Assim como o diabetes, o cigarro aumenta muito a chance de necrose da pele e de outros tecidos. Necrose significa morte do tecido.
Tanto o cigarro quanto o diabetes causam lesões crônicas persistentes. Ainda assim, quanto antes parar, melhor. Não adianta chorar pelo leite derramado.
Álcool
“Ah, doutor, mas eu não fumo e não tenho diabetes…”
Calma, ainda existem outros fatores importantes para falar.
Já que acabamos de falar sobre o cigarro, vale abordar outro vício comum: o álcool.
A bebida alcoólica não prejudica tanto a consolidação do osso quebrado quanto o cigarro ou o diabetes. No entanto, dependendo da quantidade consumida no dia a dia, ela também pode atrapalhar a recuperação.
O excesso de álcool pode levar à desnutrição e à falta de nutrientes importantes para o osso. Isso está associado a um atraso na consolidação da fratura.
Além disso, quem bebe em excesso pode não colaborar adequadamente com o tratamento. A pessoa pode acabar pisando quando não deve ou sofrendo quedas, o que compromete a recuperação.
Se você tem bom senso e toma um vinho ou uma cerveja de vez em quando, está tudo certo. Porém, se você bebe com frequência ou em grande quantidade de uma só vez, isso pode se tornar um problema.
Por isso, quanto menos você beber, melhor.
Alimentação, Obesidade e Nutrientes
Como muita gente associa alimentação com cicatrização, vamos entrar nesse assunto. Vou tentar ser o mais objetivo e claro possível, porque existe muita informação circulando por aí, com pouco embasamento.
Para evitar um conteúdo longo, confuso e cheio de achismos, vamos focar no que tem mais evidência.
Obesidade
A obesidade apresenta um nível de evidência moderado a alto de prejuízo na recuperação da fratura.
“Mas, doutor, o que a minha barriga tem a ver com o osso colar?”
Resumindo, o tecido adiposo, que é responsável pelo acúmulo de gordura no corpo, produz muitas substâncias inflamatórias. Essas substâncias atrapalham a cicatrização dos tecidos.
Além disso, o excesso de peso sobrecarrega a região que já está fragilizada pela fratura. Se você passou por cirurgia, placas, hastes e parafusos que mantêm o osso no lugar podem quebrar antes do tempo. Se não houve cirurgia e foi colocado um gesso, ele também pode não suportar a carga adequadamente.
Outro ponto importante é que braços ou pernas com mais gordura dificultam o ajuste da imobilização. Além disso, a cirurgia se torna mais complexa e trabalhosa, tanto por causa da gordura quanto da massa muscular.
Também é importante lembrar que pessoas muito acima do peso podem não conseguir sustentar o próprio peso nos braços ao usar muletas. Com isso, acabam precisando de cadeira de rodas, perdendo mobilidade e liberdade de forma desnecessária.
Perder peso pode ajudar, mas isso precisa ser feito com muito cuidado. A desnutrição atrapalha ainda mais a consolidação da fratura e a recuperação do paciente. Inclusive, ela é a quarta causa de atraso na consolidação e na recuperação de quem quebrou um osso.
Desnutrição
Um paciente verdadeiramente desnutrido atrapalha mais a consolidação da fratura do que alguém com sobrepeso. Isso acontece porque ele não tem os nutrientes necessários para formar o osso.
Apesar de duro e rico em cálcio, o osso não é como uma pedra. Ele é um tecido vivo, composto por células, nervos, vasos sanguíneos e muita proteína, principalmente colágeno tipo 1.
Por isso, quem tem carência de proteínas e calorias dificilmente consegue formar osso de forma adequada. Esse quadro pode ser identificado por meio da dosagem de albumina no sangue e pela presença de sinais de anemia.
A maioria dos pacientes que atendo no consultório consome menos proteína do que deveria. Esse problema é ainda mais comum entre pessoas idosas.
Quanto maior o trauma, como em um acidente de moto com múltiplas fraturas, maior é o gasto calórico do corpo durante a recuperação.
Por esse motivo, reforço que, se a pessoa precisar emagrecer, a dieta deve ser bem planejada, para evitar a falta de nutrientes essenciais para a consolidação da fratura.
Nutrientes específicos para o osso
Falando em nutrientes específicos para o osso, não existem tantos estudos com evidência científica direta e robusta que comprovem aceleração da consolidação óssea. Isso acontece porque é muito difícil realizar estudos científicos para provar esse tipo de efeito.
Ainda assim, isso não significa que esses nutrientes não sejam importantes.
Preste atenção neste ponto, que vale para toda a ciência: o fato de ainda não existirem provas não quer dizer que algo não exista. A gravidade, por exemplo, sempre existiu, mas foi Isaac Newton quem a “descobriu”.
Voltando ao tema da alimentação, já se sabe quais são os principais nutrientes envolvidos na formação do osso. Portanto, pela lógica, a falta desses nutrientes indica fatores que podem atrapalhar a consolidação da fratura.
Agora, vamos aos nutrientes importantes para o osso, além da proteína e das calorias, que já mencionei antes.
Os dois mais importantes são o cálcio e a vitamina D. Existem alguns trabalhos científicos que mostram a importância desses nutrientes. No entanto, o excesso não acelera significativamente a recuperação do osso. O principal problema é a deficiência, que atrapalha a consolidação.
Outras vitaminas e minerais também são muito importantes para os ossos. Entre eles estão a vitamina C, que é base para a formação de colágeno em todo o corpo, a vitamina K, principalmente a K2, as vitaminas do complexo B, além de magnésio, zinco e cobre.
Osteoporose, osteopenia e consolidação das fraturas
Agora, vamos falar de um assunto polêmico e frequentemente mal compreendido: a relação entre osteoporose, osteopenia e a consolidação das fraturas. A ideia aqui é acabar com mitos e colocar os pingos nos is.
Tanto a osteoporose quanto a osteopenia são condições em que o osso se torna mais poroso e frágil. No entanto, a velocidade de consolidação não muda e não fica prejudicada. O osso cola na mesma velocidade e na mesma proporção.
O grande problema em pessoas com osteopenia ou osteoporose é outro. Como o osso é mais frágil, a fixação cirúrgica se torna mais difícil. Os parafusos podem soltar com mais facilidade ou o osso pode quebrar no local do furo do parafuso.
Por isso, do ponto de vista técnico, o médico precisa ser mais habilidoso e experiente. Além disso, o material cirúrgico deve ser de melhor qualidade, e o paciente precisa ser mais cauteloso no pós-operatório.
Antigamente, acreditava-se que os medicamentos para osteoporose atrapalhavam a consolidação do osso. Isso era dito principalmente sobre os bifosfonatos, como o alendronato e outros da mesma família. Hoje, porém, existe bastante evidência mostrando que esses medicamentos não prejudicam esse processo.
Por outro lado, há um medicamento mais novo e menos conhecido que pode aumentar a consolidação das fraturas. Esse medicamento é a teriparatida. Trata-se de um remédio caro e que apresenta riscos quando usado de forma indiscriminada. Por isso, acabo prescrevendo muito pouco.
Inclusive, nunca indico esse medicamento para alguém que acabou de quebrar um osso.
Apesar de a osteoporose não prejudicar a consolidação, é fundamental tratar a doença assim que ela é diagnosticada. Quando não tratada, é comum que a pessoa apresente novas fraturas, muitas vezes mais graves, no futuro. Portanto, o objetivo do tratamento é preventivo.
Idade e consolidação óssea
Agora, vamos diferenciar uma coisa para não gerar confusão. Apesar de a osteoporose não atrapalhar a recuperação, a idade da pessoa interfere, sim, na consolidação óssea.
Quanto mais velha a pessoa, mais lento é o metabolismo do osso. Com isso, a consolidação pode acontecer de forma mais demorada.
Em relação à idade, infelizmente, não há muito o que fazer. No entanto, é possível se cuidar desde jovem para chegar bem à velhice. A prevenção é sempre o melhor remédio.
Outras doenças e consolidação Óssea
Outros fatores que podem atrapalhar a consolidação do osso são algumas doenças e o uso de certos medicamentos.
As condições que vou citar agora têm menos estudos específicos relacionados às fraturas. Ainda assim, vale a pena mencioná-las para deixar o conteúdo mais completo.
As primeiras são as doenças cardiovasculares, principalmente as doenças vasculares periféricas, como a insuficiência arterial crônica. Isso é ainda mais relevante quando a doença afeta o mesmo membro que sofreu a fratura.
Essas condições prejudicam muito a circulação do sangue, o que atrapalha a consolidação da fratura e a cicatrização em caso de cirurgia. O mecanismo é semelhante ao do cigarro.
A doença renal também pode interferir bastante na consolidação óssea. Isso acontece porque o rim é responsável pela ativação final da vitamina D. Mesmo que o nível de vitamina D no sangue esteja normal ou elevado, sem essa ativação ela não funciona corretamente.
Além disso, o rim regula a absorção e a eliminação de cálcio e fósforo pela urina. Nos estágios mais avançados da doença renal, a pessoa pode desenvolver osteodistrofia renal, uma condição em que os ossos ficam mais frágeis.
Nessas situações, mesmo que o osso consolide, o calo ósseo pode ficar frágil e quebrar novamente.
Alguns estudos indicam que certas doenças reumáticas, endócrinas e a falta de alguns hormônios podem prejudicar a consolidação. No entanto, essa evidência é mais baixa.
Ainda assim, se você tem alguma dessas condições, é importante conversar com seu endocrinologista ou reumatologista e verificar se elas estão bem controladas, assim como acontece com o diabetes.
Remédios que podem atrapalhar a consolidação
O processo de consolidação das fraturas é controlado por algumas substâncias inflamatórias específicas. Elas são liberadas logo após a fratura acontecer.
Quando a pessoa usa muitos anti-inflamatórios ou corticoides, que são um tipo de anti-inflamatório esteroidal, o corpo passa a produzir menos dessas substâncias. Isso pode atrapalhar o processo de cura do osso.
Antigamente, havia muito receio em prescrever anti-inflamatórios para pacientes com fratura. Hoje, sabe-se que o uso por pouco tempo, em baixas doses, não costuma causar grandes problemas.
No entanto, os estudos mostram que quanto maior a dose e quanto mais tempo a pessoa usa esses medicamentos, maior é a chance de o osso não colar ou de a consolidação demorar mais.
É muito comum que as pessoas usem anti-inflamatórios por semanas ou até meses por causa da dor da fratura. Nesses casos, é melhor substituir por analgésicos, como dipirona ou paracetamol, ou, quando necessário, por opções mais fortes, como tramadol ou codeína.
Vale lembrar que não é normal o osso continuar doendo tanto depois de três a quatro semanas. A dor costuma melhorar bem antes da consolidação completa, principalmente quando há imobilização com gesso ou quando foi realizada cirurgia.
Por isso, se você continua com muita dor no local da fratura após cerca de um mês, é importante avaliar se está tudo realmente bem.
Movimento e Fisioterapia
Quando falamos em fraturas, a quantidade certa de movimento é importante para que o osso cole. O osso não consolida do dia para a noite. Ele passa por um processo que envolve a formação do calo mole e, depois, a sua ossificação.
O osso funciona de forma parecida com o músculo e o tendão. Quando recebe carga, ele fica mais forte e produz mais massa óssea. Porém, assim como acontece com músculos e tendões, se a carga ultrapassa o limite, ocorre a ruptura. No caso do osso, a fratura.
O calo ósseo, quando começa a se formar, é fino como uma casca de ovo. Por isso, se você força mais do que deveria, ele pode quebrar com facilidade.
Outro ponto importante é que os metais usados para fixar a fratura, como placas, hastes e parafusos, também podem quebrar ou soltar do osso se forem submetidos a carga excessiva.
“Mas, doutor, quanto eu devo mexer então?”
Infelizmente, não existe uma receita única para todos os casos. Cada tipo de fratura e cada forma de estabilização determinam o quanto de carga pode ser aplicada. Além disso, essa intensidade muda ao longo da recuperação.
Por esse motivo, é necessário acompanhar corretamente com o médico, realizando radiografias praticamente todos os meses até que o osso esteja totalmente consolidado.
O movimento e a fisioterapia são muito importantes sempre que possível. No entanto, a carga precisa ser controlada e aumentada de forma progressiva ao longo das semanas ou meses.
Alimentos, plantas e remédios naturais
Agora vamos entrar na parte mais polêmica. Afinal, será que mastruz ajuda mesmo? E será que carne de porco atrapalha a consolidação da fratura?
Falando de forma bem direta, não existe evidência científica que comprove que esses alimentos ou plantas ajudam ou atrapalham a consolidação do osso. Do ponto de vista científico, são crenças populares, e não é possível afirmar nem benefícios nem prejuízos.
Vamos detalhar melhor começando pela carne de porco. Não existem estudos que mostrem que ela prejudica a consolidação da fratura. Pelo contrário, trata-se de uma ótima fonte de proteína, nutriente essencial para o osso colar.
Não se sabe ao certo de onde surgiu essa crença. Ela é semelhante a outras ideias populares, como dizer que é perigoso tomar leite com manga ou que não se pode tomar banho logo após comer porque causaria indigestão grave.
Em relação ao mastruz, a situação é um pouco diferente. No Brasil, existem poucos estudos feitos com essa planta, e eles foram realizados apenas em animais. Não há trabalhos suficientes, com amostras grandes, nem estudos em humanos. Por isso, a evidência científica é muito baixa.
Outros fitoterápicos com ação anti-inflamatória, como cúrcuma, arnica, própolis, garra do diabo, boswellia, erva-baleeira e sucupira, podem ajudar na dor e no inchaço da fratura. Com isso, a pessoa pode ter a impressão de que está “curando tudo”. Na prática, esses produtos atuam nas partes moles, e não diretamente no osso.
Esse efeito é semelhante ao de um anti-inflamatório. Portanto, se o objetivo for aliviar dor e inchaço, eles podem ser usados, assim como o mastruz, sem maiores problemas. No entanto, não é possível afirmar com certeza que esses produtos acelerem a consolidação óssea, pois não existem estudos que comprovem isso.
O sebo de carneiro segue a mesma lógica. Ele pode ter um efeito hidratante e talvez cicatrizante para a pele. No entanto, não existem estudos que mostrem benefício para o osso, nem efeito anti-inflamatório.
Nota
Agora, atenção a um ponto muito importante. É fundamental observar de quem e de onde você compra esses produtos. Existe muito produto adulterado por aí. Inclusive, já há relatos de produtos “naturais” que contêm anti-inflamatórios de farmácia, como diclofenaco. A pessoa usa, acha que é milagroso, mas na verdade está tomando um medicamento sem saber.
Além disso, algumas plantas podem conter substâncias tóxicas. Por isso, é essencial ter cuidado redobrado com a procedência desses produtos.
Tratamento científico avançado: Ondas de choque focais
Atualmente, o tratamento sem cirurgia com mais evidência para ajudar na consolidação de fraturas que não estão consolidando é o uso das ondas de choque focais.
Não se trata daquele “choquinho” usado na fisioterapia. Não tem nada a ver. Esse método utiliza uma onda mecânica e acústica de alta energia, semelhante ao equipamento usado para quebrar pedras nos rins, conhecido como litotripsia extracorpórea.
O Dr. Oliver Ulson é médico ortopedista, especialista em cirurgia do joelho, professor, mestre e doutorando na Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo. Além disso, ele realiza também atendimentos em seu consultório particular em São Paulo e por telemedicina.



