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Se você quebrou um osso e quer aprender tudo sobre a sua cicatrização, para entender se as coisas estão evoluindo da forma certa e saber o que você pode fazer para garantir que esse osso cole rápido e da melhor forma possível, este artigo é para você.
Ao longo do texto, vou explicar, da forma mais didática possível, as principais dúvidas sobre a consolidação das fraturas. Para isso, vamos seguir uma sequência lógica.
Primeiro, vamos entender como um osso cola e quanto tempo esse processo pode demorar. Depois, vou explicar o que ajuda e o que atrapalha nessa fase.
Também vamos falar se o osso quebrado volta ao normal, quais são os cuidados durante um tratamento com cirurgia e sem cirurgia, e como a gente sabe se o osso está colando ou não. Além disso, vou responder outras dúvidas comuns sobre esse assunto.
O que é o osso e como ele funciona
Para entender como um osso cola, é importante saber, antes de tudo, como funciona um osso normal.
O osso é um tecido vivo. Ele não serve apenas para sustentar o corpo, mas também funciona como uma reserva de cálcio e outros minerais importantes para o organismo.
Além disso, o osso possui células e uma grande quantidade de colágeno, que é uma proteína. Sobre essa estrutura ocorre a deposição de minerais, como o cálcio e o fósforo.
A principal vitamina envolvida na produção de colágeno é a vitamina C. Já a principal vitamina responsável por ajudar a acumular cálcio no osso é a vitamina D.
Por isso, aqui a gente já consegue identificar as primeiras coisas que são importantes para a formação do osso: proteína, vitamina C, vitamina D, cálcio, fósforo e outros minerais. A vitamina D também é fundamental para a absorção do cálcio no intestino.
O que o osso precisa para se regenerar corretamente
A célula responsável por produzir o osso é o osteoblasto. Já a célula que reabsorve o osso, ou seja, que tira osso, é o osteoclasto. As duas são muito importantes para manter um osso novo e sadio.
Para facilitar o entendimento, pense assim: o osteoclasto retira o osso velho, enquanto o osteoblasto forma o osso novo.
O osso também possui muitos vasos sanguíneos dentro e ao redor dele. Por isso, quando um osso quebra, ocorre bastante sangramento. Além disso, o osso tem muitos nervos, o que explica por que a fratura costuma doer tanto.
É muito importante entender isso. O osso é vivo e precisa de circulação de sangue para cicatrizar.
Por esse motivo, pessoas que fumam ou que têm diabetes apresentam um risco bem maior de o osso não colar ou de demorar muito mais para consolidar. Em média, o diabetes pode chegar a quase dobrar o tempo necessário para a consolidação da fratura.
Além disso, quanto mais grave for o trauma naquele osso, maior costuma ser a lesão dos vasos sanguíneos. Consequentemente, mais difícil tende a ser a consolidação da fratura.
É claro que o metabolismo e a fisiologia óssea têm muito mais detalhes. No entanto, tudo o que eu expliquei até aqui é o mais importante para você entender esse processo.
Agora, vamos entender como o osso cola, quanto tempo isso costuma demorar e, depois disso, você vai entender se esse osso volta ao normal ou não.
Fratura: o que realmente importa entender
Muita gente fala sobre a diferença entre um osso trincado e um osso quebrado. Na prática, o termo médico utilizado é fratura, seja quando existe apenas um “trinco” no osso ou quando o osso quebra totalmente.
A diferença que a gente costuma fazer é entre uma fratura com traço incompleto e uma fratura com traço completo.

Para entender a gravidade de uma fratura, o básico que você precisa saber envolve três pontos principais: o desvio, a fragmentação e o local onde a fratura aconteceu no osso.
Essas informações são fundamentais para definir o tratamento. É a partir disso que se decide se o caso será tratado com gesso, se há indicação de cirurgia ou até mesmo qual tipo de cirurgia pode ser necessária.
E é exatamente isso que eu vou te explicar agora, de forma mais clara.
Desvio
Desvio é como a gente chama o deslocamento entre as duas partes do osso fraturado.
Se o osso saiu do lugar, a gente diz que está deslocado, ou seja, que existe desvio. Se o osso quebrou, mas não saiu do lugar, a gente fala que não tem desvio.
Também é possível detalhar melhor o quanto esse osso deslocou. De forma geral, quanto maior o desvio, pior costuma ser a fratura.

Fragmentação
A fragmentação, ou cominuição, como os ortopedistas costumam falar, se refere à quantidade de fragmentos em que o osso quebrou.
Quando existem apenas dois fragmentos ósseos separados, chamamos de traço simples.
Quando o osso quebra em mais pedaços, ou fragmentos, a fratura é chamada de multifragmentada ou cominuta.

Isso é importante de saber porque muda a técnica cirúrgica. Se o ortopedista não utiliza a técnica correta, o osso pode não colar.
Local da fratura
A terceira coisa que a gente precisa saber sobre a fratura é onde ela aconteceu.
É importante identificar se a fratura atingiu a articulação ou não e se ocorreu mais no meio do osso ou mais próximo das pontas.

Quando a articulação é afetada, a pessoa passa a ter um risco muito maior de desenvolver artrose nessa articulação no futuro. Esse risco é ainda maior quando a fratura fica desviada e forma algum degrau na articulação, o que aumenta bastante o atrito e acelera o desgaste da cartilagem.
Por outro lado, a circulação sanguínea do meio do osso, que a gente chama de diáfise, é bem pior. Por isso, as fraturas nessa região têm uma chance maior de não colar.
E tudo isso muda a nossa conduta médica.
Como o osso cola depois da fratura
Agora vamos entender como o osso cola depois que quebra e quanto tempo isso pode demorar.
Depois de uma fratura, o osso pode colar de duas formas. Uma delas acontece com a formação de calo ósseo. A outra ocorre sem a formação de calo ósseo.
Quando não há formação de calo ósseo, a gente chama esse processo de consolidação primária. Já quando existe a formação de calo, o nome é consolidação secundária.
Consolidação primária
Na consolidação primária, a união dos dois fragmentos do osso acontece de forma direta, por meio de uma modificação microscópica nos canais do osso.
Nesse processo, ocorre a calcificação direta do foco da fratura, com a atuação dos osteoblastos e dos osteoclastos.
Essa é uma forma mais rara de acontecer de maneira natural. Para que isso ocorra, não pode existir nenhum movimento no local da fratura, e a redução precisa ser perfeita.
Ou seja, o osso precisa estar perfeitamente encaixado, como era antes, e sem qualquer movimento entre os fragmentos. Na maioria das vezes, a gente só consegue esse cenário por meio da cirurgia.
Consolidação secundária (com calo ósseo)
Por isso, a consolidação secundária, com formação de calo ósseo, é a principal forma de o osso consolidar na natureza há milhões de anos.
Isso acontece principalmente quando a gente fala de uma fratura desviada ou deslocada.
A consolidação secundária, com formação de calo ósseo, ocorre em quatro estágios.
1º estágio: formação do hematoma
O primeiro estágio acontece logo após a fratura, com a formação de um hematoma, causada pelo sangramento do osso quebrado.
Esse hematoma possui muitas células-tronco mesenquimais, que estimulam o processo de formação óssea. Esse processo é estimulado por substâncias inflamatórias.
Então, guarda isso: a inflamação faz parte do processo de consolidação óssea. É essa inflamação inicial que desencadeia todo o processo que vai levar o osso a colar no futuro.
Por isso, é muito importante evitar o uso excessivo de anti-inflamatórios quando ocorre uma fratura. Em alguns casos, o anti-inflamatório ajuda a evitar que a região fique muito inchada e dolorida. No entanto, o excesso pode atrapalhar e atrasar esse processo.
Geralmente, o indicado é usar por no máximo 3 a 5 dias. Mas, se puder evitar, melhor ainda.
Essa etapa de formação do hematoma dura em torno de 1 a 2 dias.
2º estágio: calo mole
Depois desse estímulo inicial, começa a formação do calo mole, que é fibroso.
Nessa etapa, que pode durar até cerca de 3 semanas após a fratura, as células presentes no local começam a formar o tecido de granulação, que funciona como uma fibrose. Em seguida, ocorre a formação do calo cartilaginoso.
Por isso, dificilmente, em um adulto, é possível ver alguma alteração no raio X antes dessa fase.
3º estágio: calo ósseo
Geralmente, a partir da terceira semana, começa a formação do calo ósseo. Nesse momento, já é possível observar uma mancha esbranquiçada no raio X.
Um ponto importante é que, conforme acontece o processo de formação do calo mole e do calo duro, o movimento entre os fragmentos da fratura deve diminuir cada vez mais. A dor também tende a reduzir.
Essa fase de formação do calo ósseo dura, em média, de 6 a 12 semanas. Esse é o tempo médio para a consolidação da grande maioria das fraturas.
No entanto, esse tempo pode variar bastante. Isso depende da idade do paciente, da saúde geral, da gravidade do trauma, do tipo de fratura e de outros fatores que eu já citei e ainda vou explicar.
Enquanto uma fratura de clavícula em um recém-nascido, por exemplo durante o parto, pode colar em poucos dias, em adultos uma fratura de fêmur pode demorar mais de 4 a 6 meses para consolidar.
Em alguns casos, o osso pode não colar sozinho, mesmo depois de um ano. Quando isso acontece, a gente chama de pseudoartrose.
4º estágio: remodelamento
Até aqui, a gente falou dos três estágios da consolidação óssea. Mas, se o osso cola no terceiro estágio, por que existe um quarto?
A quarta etapa é a fase de remodelamento. Nesse momento, o calo ósseo vai diminuindo e o osso vai voltando ao seu formato mais natural, semelhante ao que tinha antes da fratura.
Essa etapa pode demorar até dois anos. Quanto mais jovem a pessoa, melhor é essa capacidade de corrigir deformidades do osso, ou seja, de corrigir um osso que ficou um pouco torto.
Exemplos de remodelamento
Agora vou mostrar alguns casos para você visualizar esse processo, que é muito interessante.
Este é um caso retirado de um livro de ortopedia. Ele mostra uma fratura desviada e encurtada no fêmur de uma criança, passando pelo processo de consolidação e remodelamento ao longo do tempo.

Este é outro caso muito interessante, também encontrado em um livro. Ele mostra todo o processo de consolidação e remodelamento de uma fratura de úmero em uma criança.

Fonte:

O osso quebrado volta ao normal?
Mas olha, gente, presta atenção, porque aqui existem muitas regras e exceções.
O que eu quero dizer com isso é que não acontece como um milagre em todos os casos, em que um osso torto simplesmente fica reto. Essa resposta muda de acordo com o tipo de fratura, o grau de desvio e a idade do paciente.
No adulto, por exemplo, a gente precisa se preocupar mais com o alinhamento da superfície da articulação, para não levar ao desenvolvimento de artrose. Além disso, quando a fratura acontece fora da articulação, é fundamental manter o alinhamento funcional entre as articulações.
Por outro lado, quando o tratamento é feito da forma correta e não ocorre nenhuma outra complicação ao longo do processo, o osso pode voltar à resistência que tinha antes.
Ou seja, dependendo do caso, ele pode voltar ao que era, ficar normal, e a pessoa pode voltar a correr, jogar futebol e fazer o que mais quiser.
É importante entender que o osso se regenera nesse processo, formando um osso novo. Ele não cicatriza no sentido clássico da palavra, já que cicatrizar significa formar uma cicatriz.
Por isso, o termo “cicatrização óssea” não é o mais correto do ponto de vista técnico. Mesmo assim, ele acaba sendo usado em conversas mais usuais.
Movimento, esforço e consolidação da fratura
Agora, para que esse osso cole direito, existe um detalhe fundamental: a intensidade de movimento e de esforço que a pessoa coloca sobre a fratura.
Esse é mais um fator importantíssimo para que o osso cole rápido e da forma correta. É aqui que muita gente acaba vacilando feio e, depois de um tempo, precisa operar.
Como você viu antes, em cada etapa da consolidação da fratura ocorre a formação de um tecido diferente, com células diferentes. Cada uma dessas células tolera um determinado grau de movimento.
Pensa assim: cada célula pequena do calo ósseo está grudando na outra. Se você estica essas células mais do que elas aguentam, elas rompem. Cada tipo de célula tem um grau de “elasticidade” que consegue suportar.
Movimento na medida certa: o equilíbrio que faz o osso colar
Quando existe um pouco de movimento, mas dentro do limite que essas células toleram, isso serve como estímulo para formar mais osso. Por outro lado, se esse limite é ultrapassado, as ligações entre as células vão se rompendo e a fratura não consolida.
Por isso, ficar totalmente parado, em repouso absoluto, também é ruim. Mas forçar além do que o seu médico recomendou pode ser ainda pior.
Isso é especialmente importante quando houve cirurgia. Nesses casos, se a pessoa força demais, o metal que está segurando o osso pode não aguentar e acabar quebrando antes da hora.
Às vezes, esse metal não quebra de uma vez. As placas e os parafusos vão sofrendo fadiga, como acontece com um clipe de papel quando você fica dobrando várias vezes. Aos poucos, vão surgindo pequenas rachaduras microscópicas, até que, em algum momento, ele acaba quebrando.
Aqui vai outra observação importante sobre as cirurgias de fratura. A função da placa, do parafuso, da haste ou de qualquer outro material usado para segurar o osso não é manter o osso assim para o resto da vida. Esses materiais servem para segurar o osso até que ele cole.
Quanto mexer e quando forçar
“Poxa, doutor, mas quanto eu devo mexer então?”
Bom, gente, isso depende muito de cada fratura e de cada tipo de tratamento. Esse assunto, inclusive, renderia outra aula de mais de uma hora.
O que você precisa guardar é o seguinte: é fundamental obedecer a orientação do seu médico em relação a isso.
Se a fratura ainda não está colada, não importa se você está se sentindo bem ou sem dor. É preciso avaliar também o raio X e ver como esse osso está evoluindo.
De forma geral, o ideal não é ficar totalmente parado, mas também não colocar muito peso ou esforço sobre a fratura. No entanto, isso pode mudar de acordo com o tratamento realizado.
Infelizmente, não existe uma receita de bolo.
Como saber se o osso está colando
Agora a gente entra em outra dúvida muito comum: como saber se o osso está colando direito e quando ele colou totalmente?
Avaliação pelo raio-X
Primeiro, vamos entender como a gente avalia, pelo raio X, se está ocorrendo a formação do calo ósseo, se esse calo está progredindo normalmente e se a fratura já está consolidada.
Logo que o osso quebra, a fratura costuma aparecer no raio X como uma linha mais escura no osso. As bordas dessa linha geralmente são mais retas, bem definidas e com contraste mais evidente.

Depois de cerca de três semanas, o calo ósseo começa a se formar. Nesse momento, pode surgir uma mancha mais clara próxima ao osso, o que indica que o calo está começando a calcificar.
Além disso, a partir dessa fase, a linha da fratura pode começar a ficar mais apagada e irregular. Ela vai perdendo definição, e as bordas passam a ficar mais suaves e mais brancas. Isso é sinal de que o foco da fratura está com o metabolismo ativo.

Dependendo do tipo de fratura, é comum solicitar uma radiografia mensal para acompanhar a evolução. O esperado é que, a cada mês, essas mudanças fiquem mais evidentes, com o foco da fratura menos visível, mais esbranquiçado e com o calo cada vez mais aparente.
Como saber se a fratura está evoluindo bem
Quando essas mudanças não acontecem em três radiografias seguidas, feitas com intervalo de um mês entre elas, e já passou o tempo esperado normal de consolidação, a gente considera um retardo de consolidação.
Ou seja, fraturas de ossos menores, como os metacarpos, costumam consolidar entre 4 e 6 semanas. Já uma fratura de fêmur pode levar de 4 a 6 meses para colar.
Para considerar que uma fratura está consolidada e com resistência adequada, é necessário que três das quatro corticais ósseas estejam consolidadas. Só então a gente tem mais segurança para liberar carga total naquele membro.

Repara como a fratura praticamente some e como é possível visualizar o calo mais branco ao redor do osso.
Avaliação clínica
Além da avaliação pelo raio X, a gente complementa essa análise observando os sintomas da pessoa.
De forma geral, quando a fratura está consolidando, a dor no local tende a diminuir. O inchaço também costuma melhorar, embora o calo ósseo possa aumentar até a consolidação total.
Quando o tratamento é feito da forma correta, o apoio e a firmeza do membro vão melhorando conforme a fratura evolui.
No entanto, é importante lembrar que a avaliação não pode ser feita apenas de forma clínica. Quando a fratura está fixada com material de síntese, como placas, hastes ou parafusos, a pessoa pode se sentir bem mesmo sem o osso estar totalmente colado.
Nessas situações, o paciente acha que está tudo certo e acaba forçando antes da hora. Como consequência, pode ocorrer a quebra da placa ou do parafuso.
Outros cuidados importantes durante a recuperação
Outra coisa que a gente não pode esquecer é que, durante esse processo, não é só do osso que a gente precisa cuidar.
Ao longo da recuperação, é fundamental cuidar do movimento das articulações, da função dos músculos e dos tendões. Isso é importante para que o membro continue útil e não fique atrofiado durante esse período.
Também não dá para esquecer dos cuidados com a cicatriz cirúrgica, nos casos em que houve cirurgia.
Quando não há cirurgia, é igualmente importante cuidar corretamente da imobilização, seja ela feita com gesso, tala ou esparadrapagem.o.
O Dr. Oliver Ulson é médico ortopedista, especialista em cirurgia do joelho, professor, mestre e doutorando na Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo. Além disso, ele realiza também atendimentos em seu consultório particular em São Paulo e por telemedicina.



